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O capitão abandonou o barco



Finalmente a capa caiu e Ivan Gazidis está de saída do Arsenal para assumir a posição de CEO no AC Milan. O homem que conseguiu tirar o poder do clube a Arsène Wenger salta fora assim que mais dinheiro é colocado em cima da mesa.

É compreensível, pois todos nós trocamos de trabalho em busca de algo melhor. Ainda no passado recente troquei o meu em busca de uma vida melhor, mas a forma como o dirigente saltou fora não deixa de admirar tendo em conta que este era o SEU projeto. Foi Gazidis que contratou Raul ao Bacelona, Sven ao Dortmund e, finalmente, foi buscar Emery que estava de saída dos franceses do PSG. Agora sai, quando os primeiros resultados - positivos diga-se de passagem - começam a aparecer.

Não iremos nomear um novo CEO no Arsenal e é compreensível. Se fosse eu a ir para o seu lugar quereria saber se iria levar um projeto meu, uma vez que seria eu a dar a cara pelo clube. A Gazidis foi dada a oportunidade de implementar a sua visão. Uma visão onde o treinador não é uma entidade tão poderosa como aconteceu nos últimos 22 anos, e pôde contratar mais pessoal, pessoal esse que agora sobe rapidamente na hierarquia do clube.

Por fim, Ivan Gazidis deve ser julgado pelo seu reinado de 10 anos em Londres e pelo sucesso que trouxe ao clube. As taças de Inglaterra e as Community Shields conquistadas nestes anos não são suficientes para o potencial de um clube tão grande como o Arsenal. Falhou ainda em convencer a família Kroenke que Wenger não era uma solução numa altura em que ainda disputávamos a Liga dos Campeões. Foi necessário cair para a Liga Europa, realizar campeonatos terríveis e ver as assistências no Emirates Stadium a cair, e se calhar este é o ponto mais importante, para finalmente se tomar uma atitude. Houve um tempo em que bastava a contratação de um técnico de qualidade e duas ou três contratações cirúrgicas para o plantel para podermos lutar contra a restante elite, e até aí falhou.

Eu não me esqueço, na última renovação de contrato com o treinador francês, que Gazidis disse que não encontraríamos melhor que Wenger, e por isso apesar de não deixar saudades é desapontante ver as pessoas a abandonarem o barco. Agora quem dará a cara se não alcançarmos os objetivos para esta temporada? Stan Kroenke ou o seu filho Josh? Nem pensar! Vamos ver como lidam os novos responsáveis, Raul Sanllehi e Vinai Venkatesham, com a pressão que os seus novos cargos colocam.

Embora Raul tenha tido sucesso no Barcelona, o Arsenal é um desafio completamente diferente, com bastantes obstáculos pelo caminho. Será ele capaz de liderar o clube? Falará ele sequer inglês?

Depois temos um antigo responsável comercial a ir também para o topo da hierarquia. Olhando para os negócios que fez, as receitas dos equipamentos da Puma não foram nada de extraordinário embora tenho havido uma grande melhoria com este novo contrato com a Adidas. Também o patrocínio da Fly Emirates não é dos mais bem pagos do mundo, por isso vamos ver como este duo vai trabalhar, sabendo que provavelmente a sua maior preocupação passará pelos negócios fora dos relvados.

Embora as coisas dentro dos relvados estejam a correr bem, fora deles a confusão é grande. Arsène Wenger saiu, Alisher Usmanov saiu e agora é a vez de Ivan Gazidis sair. Stan Kroenke tem todo o poder agora. Stan Kroenke é daquelas pessoas que comprou o Arsenal pelo potencial financeiro do clube, que poderia ser bem maior do que é atualmente, mas que não compreende as tradições do nosso clube, nem sequer do desporto em si. Pior, nem se quer está interessado em compreender. O que lhe interessa é só o dinheiro.

Não haja duvidas que estas mudanças estruturais afetam os jogadores. Os nossos jogadores desde há muitos anos que não são dos mais fortes mentalmente. Não são jogadores de um Chelsea ou Manchester City que se quiserem fazem cair um treinador, mas logo a seguir estão a lutar pelo título. A nossa mentalidade na última década não passou de mediana. Precisamos de uma revolução, mas o capitão abandonou. Ironicamente, não deixa saudades.

Muitas lições terão de ser aprendidas com os erros do passado. Muitas pessoas, tal como eu, pediram mudanças e elas aconteceram com as saídas de Wenger e Gazidis. Vamos ver como corre. Para já, dentro de campo as coisas parecem estar a correr bem. As contratações que chegaram foram importantes e há jogadores que nem parecem os mesmos com a mudança de treinador.

Vamos ver se de acordo com o nosso lema, "Victoria Concordia Crescit", vamos passo a passo conquistando os objetivos para reerguer este clube. Se as coisas correrem bem dentro de campo, as atenções fora dele deixam de exisitir.


Texto: Ricardo Pires
Imagem: Ricardo Casais

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